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Palavras, para quê?!

Tudo o que havia a dizer foi trazido ali, em mais um encontro no Chá com Letras, nesta sexta-feira, 19 de março.
Na palavra escrita original, na palavra dita, na ternura expressiva da música, do canto, do teatro; no carinho e Amor Fraternais, no amor à Liberdade, no genuíno testemunho duma comunhão social entrançada de cultura e valores intergeracionais que nos confortam a alma e nos fazem acreditar, tal como a pequena Beatriz na beleza e confiança infinitas do amor de:
"Pai,

Quando eu nasci, tu foste o primeiro a pegar-me ao colo! Tu sempre estarás no meu coração. Não sei se quando eu nasci te amava, mas provavelmente sim!
Tu és o super-herói dos meus sonhos e o ladrão do meu coração!

Eu quero que tu saibas que eu te amo com todas as forças do infinito! Nunca te esqueças disso!19/03/2021- Beatriz Portugal".

E porque a Liberdade traz, sempre, a Primavera - sendo que o contrário também é verdadeiro - é imprescindível sentir a “Crónica original, levemente ficcionada”, do professor António Salavessa:

“Groninga. 1974
Março tinha ficado para trás e maio estava próximo, mas o inverno perdurava. Chuva, vento e algum frio persistiam, alheios ao cronograma das estações do ano.
Enquanto pedalava na manhã chuvosa, agasalhado e protegido por impermeável e lãs, agradecia aos céus que, nesse inverno, o frio não tivesse sido de rachar. Nem o Ondiep, que acompanhava o meu caminho, nem qualquer outro canal tinha congelado. Os patins permaneceram pendurados, atrás das portas ou dentro dos armários, à espera de invernos que pudessem dar-lhes uso.
Já era dia, mas o nevoeiro e a chuva miudinha mal deixavam perceber as águas do canal e muito menos os pólderes onde medravam legumes e cereais mais serôdios, tal como túlipas próximas do esplendor.
Eram quase sete. Da Visserstraat até à fábrica tinham sido dez minutos de pedalada calma, sem pressas. Sabia que o trabalho não foge e apenas começa quando toca a sirene.
Pouco depois, dentro de um fato-macaco cinza, saudando, espaçadamente, os colegas que encontrava, comecei a lide. Era dia de fazer mel para padarias e pastelarias. Artificial, naturalmente, porque não são meus os dotes das abelhas.
Ao fim do dia estariam a centrifugar e arrefecer três toneladas de uma mistura xaroposa, gerada num grande tanque de cozedura, com água, açúcar corrente e sacarose pura, com a ajuda da dose certa de ácido sulfúrico, mais tarde neutralizado por uma base.
Às onze parávamos uma hora para almoçar. Juntávamo-nos numa espécie de cantina e comíamos a broodmaaltijd – a refeição de pão típica de um país de cozinha austera. Sandes e petiscos trazidos na lancheira, sempre acompanhados de púcaras de bom café de saco, feito na hora, de aroma forte e reconfortante.
Entre golos de café, era meu passatempo tentar perceber as notícias que saíam de uma telefonia, numa língua que cada vez ia entendendo melhor. O destaque do dia atravessou a sala como o silvo de um chicote e deflagrou na minha cabeça como uma bomba. “Staatsgreep in Portugal”, golpe de estado em Portugal, foi a frase de abertura, seguida por detalhes, ainda imprecisos e confusos, do que se estava a passar a mais de dois mil quilómetros.
Quase rebentava de alegria e tinha que a partilhar com os meus colegas. - Um golpe militar em Portugal, ouviram? Um golpe militar em Portugal!
Olharam para mim como se fosse louco, surpreendidos por tamanho júbilo. É que eles já sabiam desde manhã cedo e nada me tinham dito, para me poupar dor ou sofrimento.
- Sabes - disse um deles com voz sombria - foram os militares!
Logo entendi. Tinham decorrido menos de seis meses sobre o dia em que a democracia e a esperança chilenas foram afogadas em sangue pelos militares de Pinochet... Na Grécia subsistia a ditadura dos coronéis... Em Espanha continuava Franco. Não faltavam exemplos para sustentar a ideia de que, vindo dos militares, não podia ser coisa boa.
Disse-lhes que se enganavam. Não é a farda que faz o homem e em Portugal seriam homens bons os que estavam fardados.
A sirene da saída tardou uma eternidade e não posso garantir a qualidade do mel feito durante essa tarde. Ansiava voar para o número 13 da Visserstraat, aterrar junto da companheira e dos amigos, partilhar abraços, informações e notícias de longe.
Saí. Cheio de esperança, pedalei de regresso a Groninga.
Parara de chover, mas o sol não se mostrava. Mas tudo isso perdera a importância. Sabia que no meu País, chegara, finalmente, a Primavera.”

Sendo certo que mais houvera se mais trouxera, aí estaremos no próximo encontro, agendado que fica para o próximo dia 16 de abril, no lugar e hora habituais.

Até lá.

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